sexta-feira, 14 de março de 2014

A raça e a pitanga

 
 
 
A raça e a pitanga...
Autor: Amália Grimaldi (Poemas Tardios)
 O mogno e o vidro.
E a coroa de Ciro.
E, do vil contemporâneo,
Essa grande colina erodida,
Esse Marrano banido.
E, do caído a fadiga.
E do semelhante
A perversa aleivosia.
E toda essa descrença.
 O não Ser. O espaço vazio.
 Da acácia, as cinzas,
O pó, levará o vento.
Mas a luz definirá a sombra
E o contorno do volume.
A prisão do tempo não tem saída.
Tem calendários. Rosas de ventos.
Caros instantes. Raros caminhos claros.
 As catedrais do silêncio
Estão fechadas...
Do misantropo, a fatiga
E do caído, adjetivos exangues.
Porta fechada. Templo calado.
Consolo de fé. Puro arremedo.
 Tacho cigano... O quinto Triângulo.
A flauta mágica...Parábola de intrigas.
Essa esfera mística, esse chão de todos nós.
 A chave e a vela. E a flor assentada.
A tesoura do tempo e a marca da partida.
Louça trincada. Visita fora de hora.
Vassoura atrás da porta; vade-retro inquisicional.
 O cálice. A mulher... E o touro.
Da palavra inútil
Melhor o silêncio. Ou,
Um resquício de vergonha.
Sublimação temperada.
Insatisfação consagrada.
 Do azedado vinho,
Tardia aquiescência.
Concepção. Percepção.
Ou, bastar-se a si próprio?
Mão exagerada.
Dosa seu engano na guia.
Princípio aglutinador.
– Salada mista de padeiro galego.
 A torre e o fidalgo...
E o quarto aposento.
Degredo. Segredo.
Pisos magnânimos.
Ídolos esculpidos...
Pouca água. Fala àtoa.
O óleo secou de vez...
E, a lamparina,
Há muito se apagou.
 Ser o crente perfeito,
O sentido da Terra faz
O sentido horário,
Usos e cultos.
O mestre. E o aprendiz.
Iniciante discípulo
Almeja melhor destino.
Homens suados
Carregam seus fardos.
 Rostos morenos...
Rostos nativos.
Rostos outros...
Gente suada...
Gente que sabe agradar.
 O nativo saruaba
Dizia ser nobre descendente
de holandês distante 
Respeitado mito. Verdade acatada.
A boca do povo...,  tem lá seu poder!
 Racional fortaleza
Envolve o chegante.
Questiona o passado.
Mas, em folhas de livro grande,
Caligrafia bordada,
Registro legal, isto nunca foi visto.
 Caminho inverso
Trata angulosa questão.
“Madre de Dios...”
O galeão espanhol
(ainda por se achar),
Resiste no mito.
 Entre o reino e a colônia,
Tesouro que a fé consagrou,
Sua riqueza maior,
Guarda o imaginário popular.
 Anjos barrocos... Robustos negros...
A circular pelo convés
Dos desejos alheios
Bíceps invejável exibiam:
A força. E o suor.
E da albarda malvada,
Provável mialgia lombar.
 – O valor da forma
A serviço do tema.
 Um sussurro... Um gesto de mão.
No escuro é clara a intenção.
Abatido em seus desejos,
O homem, no pecado,
confronta Deus e Lúcifer.
E...,  o Capitão Padilha...
 Nas águas da baía azul,
Deu-se o engasgo fatal...
De  tanto comer aspargos,
Tinha ele verde a cara...
Van Dorth não resistiu.
 Na íngreme incerteza
Daqueles seus dias,
Da fruta nativa,
Seus caroços, atiçavam por aí...
Entre o barranco e o mar.
 Essência da terra,
Essa argamassa notável,
Forte argumento é voz repetida; 
Sustenta frágil ídolo.
 Desse longínquo tempo
Restou-nos certezas,
(que a História não conta).
Visto que, do colonizador europeu,
(dito civilizado...),
Dele herdamos seus costumes;
Bons e maus.
 Bem dizendo o escrivão Caminha,
... Lá, tudo o que se planta, a terra dá...
Dito e certo! Sob chuvas tropicais,
A tão cantada fertilidade nativa
Logo se confirmaria:
– Sementes vingaram!
 

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