Cantos de Sereia
(Amália Grimaldi – Meus poemas)
Um tanto esfarelada,
A balaustrada, presente em seus andrajos,
Ainda resiste. Nos cantos da idílica memória.
Ferros à mostra, denotam urgência
Necessidade de reparos.
Cotovelos arranhados, dor, já não sentia.
Somente um grande prazer de ali estar.
O barulho daquelas ondas
castigando os velhos rochedos,
tão pacientes no tempo...
– Ondina! Como és bela!
Um pedaço de mar irado
Espremido entre morrotes
Rebento da acidentada
Linha costeira da baía azul.
Mar de todos os santos. E, meu também.
Ali voltei, numa tarde sem sol,
Só para escutar os cantos de sereia.
Mito distante que se faz presente
Nas histórias dos velhos pescadores.
E no mito exaltado dos cantos de sereia.
A reverenciar antigas crenças.
Barcos à vista... Eles, os pescadores,
Logo alcançarão o patamar de entrada...
Umbral distante. A casa do Astro Rei.
– Idílica figuração da minha necessária fantasia.
O mistério do mar e a lonjura
De terras que a vista alcança.
O horizonte distante...
Trama de relações. Mitos e lendas.
Persas e judeus... O passado histórico.
Homens sábios revelados;
Filósofos emblemáticos,
Homens de coragem
E grandes navegações.
E o mito do Bojador,
Ora ultrapassado.
O pescador, homem incansável
na rotina que o
envolve,
clara é a visão do seu cotidiano,
o que o faz destacado.
Mas, prisioneiro imemorial de seu olhar,
o pescador, homem sensível,
se deixa fisgar na própria linha
A possessiva visão de um horizonte
sempre distante,
mas que deverá ser alcançado,
segue a perseguí-lo, dia e noite.
A ganância faz do homem
predador universal por excelência
Maldade essa, que agrega todos nós,
Pecadores, num frágil cadinho de vidro,
Sob o firme pistilo do conflito.
Amálgama pegajoso. Residual.
Vínculo aglutinado. Na certeza que propicia.
Cantos de Sereia. Às vezes fatal.

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